terça-feira, 7 de abril de 2020

SOBRE A NECESSIDADE DE SER SUPERIOR

      Por diversas vezes nós, enquanto sociedade, nos encontramos em uma posição competitiva, seja uma entrevista de emprego ou um grande processo seletivo, essas são situações que requerem esforço e são baseadas na lógica de "superioridade". No entanto, essa mesma lógica meritocrata e totalmente restrita é aplicada a outros campos da vida, campos onde esse sistema não é necessário e, às vezes, prejudicial.

      Em essência, competir significa batalhar, concorrer por algo e, como supracitado, é uma ação que demanda preparação, garra, esforço e força de vontade. Portanto, a noção de competição não só não é ruim, como também é necessária em algumas ocasiões, porém, no mundo pós-moderno atual, existe uma sociedade do cansaço.

      Essa sociedade, teorizada por Byung Chul-Han, é fundamentada na relação entre cansaço e desempenho, onde quanto mais cansado, mais realizado pessoalmente o indivíduo fica. De acordo com o sociólogo, esse fenômeno acontece devido a quantidade absurda de "estímulos", ou seja, a todo momento há uma tarefa e a necessidade de terminá-la, pois ser produtivo é imprescindível. Segundo Han, essa sociedade do cansaço também é marcada por frequentes distúrbios neuronais decorrentes da frustração de "não ser suficiente" nunca.

“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”

“Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento."      

algumas falas de Chul-Han em:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.html

      Nessa lógica, os indivíduos, cada vez mais, transferem essa noção de superioridade e de competição para sua vida pessoal e essa falta de separação pode gerar conflitos banais e desnecessários. Ou seja, tem-se a necessidade de ser sempre o mais inteligente, de ler mais livros que todos, de possuir maior arcabouço e referências, de ser o melhor jogador de futebol, de ser o melhor pulador de amarelinhas...

      Nota-se que essa necessidade infinita de ser (na verdade, parecer) melhor atrapalha diversos relacionamentos pessoais. Frequentemente, amigos se afastam, familiares de magoam com comportamentos baseados numa lógica de desempenho falha e mentirosa, baseadas num hiperconsumismo e no hiper cansaço. 

      Enfim, esses devaneios de quarentena ainda vão me transformar numa filósofa (ou numa doida)!

      A minha conclusão pessoal é que "relaxar" e permitir-se "não saber algo" pode ser benéfico e saudável para a tão negligenciada saúde mental de cada um. Aproveite os momentos, divirta-se, meça a importância de "parecer" e "seja" mais!

“A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”. Chul-Han

-Giovana, socióloga de quarentena.

Nenhum comentário:

Postar um comentário